
A construção civil há muito tempo é uma das maiores empregadoras do país. São inúmeras pessoas, advindas de serviços diversos, após perderem seus empregos, encontram acolhimento nesse setor.
Infelizmente, devido à economia informal, à cultura brasileira e ao relapso de muitos profissionais o quesito segurança vem sendo deixado de lado.
Mesmo com esforço de alguns engenheiros e de valorosos de mestres de obras, a maioria da turma não tem preparo adequado para a função. Isso se deve ao relaxamento das autoridades e ao aceite dos clientes em “pagar uma mão de obra mais barata”, que pode não trazer um bom resultado final da obra. Abaixo reproduzimos um acidente, relatado em uma carta por um pedreiro, que aconteceu em nosso país.
Carta do pedreiro José de Oliveira pedindo indenização da empresa por acidente de trabalho:
"Trabalho na empresa há mais de dois anos e no dia do acidente estava fechando a alvenaria externa do 6º andar. Recebera a ordem de deixar o local limpo, sem nenhum tijolo, assim que finalizasse o serviço. Terminei às 16:30. Faltava só meia hora para acabar o expediente e sobraram uns 150 tijolos no local, que eu devia levar para baixo. Era muito tijolo, eu no 6º andar, sozinho. Ia levar um tempão para descer toda a tijolada. Resolvi apelar para a inteligência.
Peguei então um tambor de 200 litros, coloquei todos os tijolos dentro dele, amarrei uma corda bem firme em volta do tambor, levei a outra ponta da corda para a carretilha que fica pendurada na laje do 12º andar. Passei a corda na carretilha e desci para o pilotis para então descer o material. Dei um puxão bem forte na corda e o tambor que estava na beiradinha bambeou e começou a descer.
Acontece que eu peso 65 quilos e o tambor cheio de tijolos pesou uns 200 quilos. O tambor começou a descer e eu a subir. Encontrei com ele ao nível do 3º andar: foi uma bruta pancada que me fraturou o joelho e me quebrou alguns dentes. Eu não podia largar a corda sob pena de cair daquela altura. Continuei subindo, com muita dor, até que meus dedos foram engolidos pela carretilha. Imagine a dor. Ao mesmo tempo escutei um barulhão: o tambor chegara no chão, perdeu o fundo e a carga de tijolos. Resultado: fiquei mais pesado que o tambor vazio.
Como o senhor já deve ter imaginado, eu, agora mais pesado que o tambor começou a descer e o tambor a subir. Nos encontramos a meio caminho, em alta velocidade, ali pelo 3º andar. Mas desta vez, como o tambor estava vazio ele só bateu com menos força no meu tornozelo, que quebrou mesmo assim, e ainda rasgou a minha coxa esquerda.
Caí no chão, justo em cima da pilha de tijolos o que me rendeu mais quatro costelas quebradas e a fratura do fêmur direito. Neste momento, sem maldade, larguei a corda e eis que o tambor desceu lá de cima, numa velocidade espantosa, e caiu bem em cima de mim. A pancada me valeu mais algumas escoriações e fratura da mandíbula, além de ter perdido mais alguns dentes. Eu já estava quase desacordado quando o nó da ponta da corda bateu no meu olho esquerdo, com toda a força, e lá se foi um olho.
Hoje, graças a Deus, estou me recuperando. Ainda não consigo me mexer e para conversar está difícil por causa da fratura da mandíbula. Ainda sinto um zumbido no ouvido e já estão providenciando a prótese de vidro para o meu olho esquerdo.
Espero que a empresa esteja também providenciando, com rapidez, minha indenização pelo acidente de trabalho. Para escrever esta carta tive que pedir ajuda da enfermeira aqui do Hospital - meus dedos estão todos enfaixados - onde já estou faz bem uns quatro meses".
Postado por João Gallo, às Terça-feira, 03 de Junho de 2008.
Como disse acima, muito temos que evoluir nesse país, em matéria de segurança e respeito aos trabalhadores. É populista a atual prática de financiamento habitacional. Carece de profissionalismo. Também, infelizmente, os futuros mutuários contratam primeiro os pedreiros e, depois procuram um profissional de arquitetura e engenharia para acompanhar a obra. Muitas vezes, devido a imposição do órgão financiador, de um custo de obra muito menor do que o real. É legal, mas não o ideal. O correto seria os que financiamentos exigissem que a economia formal executasse as obras, com preços adequados. Com registros dos funcionários do início ao fim das obras. A regra do jogo deve ser melhorada.
Porém, para práticas inadequadas existem clientes que aceitam a situação, em detrimento de toda cadeia da legalidade. Os resultados poderão ser desastrosos.
Onde o Estado não atua alguém o faz, para melhor ou para pior, assumindo o papel do Estado. Nesse quesito os poderes constituídos deixam muito a desejar em nosso país.
Dagoberto Waydzik
Engenheiro Civil

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