Powered By Blogger

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Antigamente as temporadas de praia eram assim


“A primeira vez a gente nunca esquece!”
Quem tem hoje por volta de 50 ou mais anos, é da classe média, média baixa, pode confirmar como era ir à praia nos meados dos anos 60, até o início dos anos 70.
Quando se falava em ir à praia a expectativa era grande. Reuniam-se os parentes em casa de uma das famílias interessadas e se começava um intenso planejamento. Especulava-se qual conhecido tinha uma casa no litoral. Fazia-se a lista de pessoas que iriam à “diversão”. Quantos dias daria para permanecer por lá? O que se levaria de mantimentos? Quais os veículos estavam em condições de fazer a “grande” viagem? Tendo as respostas para essas questões, mais ou menos, passava-se ao vamos ver, à consecução do plano.
Certa vez, uns parentes meus resolveram fazer essa jornada na praia de Matinhos. Eu, com meus sete anos, era um dos agregados. O nome desse balneário era muito ouvido por mim e me impressionava. Ainda mais que seria a primeira vez que eu veria o mar. Havia um nó em minha cabeça, pois pensava: o mar é água e Matinhos remete a mato... A dúvida permanecia e eu refletia que poderia ser um grande lago à beira do mato.
Os veículos eram três rurais Willis. As famílias eram compostas de grande número de filhos. Iam cerca de três famílias, mais os “agregados”. Três vezes seis resultavam dezoito pessoas. Tudo mais ou menos. Mas, não importava. Acomodavam-se nos bancos e bagageiros dos veículos e, lá pelas 3 da madrugada saía o comboio. Só não se soltava foguetes por que era muito cedo, mas a vontade era grande, tamanha a euforia da turma.
Na descida da serra as paradas eram muitas. Para limpar o regurgito da criançada, tomar garapa de cana, comprar toletes de palmito, abacaxis, cachos de banana! Como se já não tivesse mantimentos para um mês, sendo que se ficariam apenas três dias. Contudo, essas iguarias não se comiam no dia a dia em nossas casas.
Chegando à casa, emprestada de um dos amigos, por volta de meio dia, deparamo-nos com algumas surpresas. A casa, de madeira, com três quartos, um banheiro somente, para abrigar toda aquela gente. A luz estava cortada, o portão caindo, não tinha gás, sem falar no cheiro de mofo! Mas, cavalo dado não se olha os dentes.
Todos alojados, os homens foram comprar gás, camarões e peixes. A mulherada foi para a limpeza e providenciar o almoço, que já veio de casa. Virado de feijão, arroz, costelinha de porco, uma salada e farofa de ovo, tudo bem leve! A criançada, já de roupa de banho detonou um cacho de banana na chegada. De bebida havia gasosas Cini, gengibirra e as indispensáveis caipirinhas.
Nem bem acabava a limpeza das louças do almoço, a criançada se alvoroçava para ir à praia. Isso, ainda pelas duas da tarde. Sem protetor solar, sem guarda-sol, porém, com três câmaras de ar de caminhão, bolas, pás, baldinhos e muita disposição. Todo mundo na água. Não havia guarda-vidas. Não sei como voltávamos vivos. Só retornávamos para casa na boca da noite. Imaginem como ficava a pele de todos? A maioria dormia sentada, sem poder encostar as costas na cadeira, que dirá na cama.
Noutro dia, a refeição era camarão ao molho com palmito e peixe frito. O camarão era do mais miúdo que existia. Comprava-se sujo e todos tinham que ajudar a limpá-los. Com palitos, as caras meio enjoadas e enojadas, todos ficavam que era só furo por baixo das unhas.
A temporada resumia-se a três dias. Muita bagunça, algumas encrencas entre as crianças, mas muita alegria por ter conhecido o mar.
Os mais velhos, depois de umas oncinhas, ficavam ricos de um dia para o outro e, ensaiavam a compra de terreno para construir uma casa de praia. Até passar o efeito da caipirinha.
No final era tudo muito difícil, sacrificado, mas diferente e satisfatório.
Assim, fui apresentado ao mar. A primeira vez a gente nunca esquece!
Dagoberto Waydzik

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O bom crescimento de uma cidade



Refletir sobre o crescimento de uma cidade e seus problemas significa pensar sobre algo a respeito do que muita gente acha que tem “a” resposta na ponta da língua. Mas, na maioria das vezes os problemas advêm da falta de planejamento. Isso deve ser discutido por profissionais da área, aliado com a vontade política dos detentores do poder.
O assunto não significa que os nãos especialistas não devem se pronunciar. Muito pelo contrário! Também é direito deles deliberarem sobre coisas que afetam suas vidas e seus destinos, nos terrenos da política, da economia, da cultura e da organização do espaço que vivem.
Ademais, a cidade é, igualmente, um centro de gestão do território, por sediar o comércio, o povo e as empresas. Entretanto, nem tudo se resume à economia! Da importância de uma cidade para fora de seus limites físicos, assim como do poder. A cidade é um centro de gestão do território não apenas enquanto sede de empresas (privadas e estatais, mas também enquanto sede do poder religioso e político). Além do mais, uma urbe não é apenas um local em que se produzem bens e onde esses bens são comercializados e consumidos, e onde pessoas trabalham. Uma cidade é um local onde pessoas se organizam e interagem com base em interesses e valores dos mais diversos, formando grupos de afinidade e de interesse. Menos ou mais bem definidos territorialmente com base na identificação entre certos recursos desejados e o ambiente, ou na base de identidades territoriais que os indivíduos buscam manter e preservar.
Sob um ângulo social abrangente, ou seja, que leve em conta os interesses legítimos de toda a sociedade, o desenvolvimento que importa não é ou deve ser meramente econômico, mais sim sócio espacial.
O desenvolvimento é, nos seus termos mais simples, um processo de mudança para melhor (conforme o desenvolvimento), um ação constante de busca de mais justiça social e melhor qualidade de vida para o maior número possível de pessoas.
Se uma cidade produz mais e mais riqueza e, se essa riqueza assim produzida e o crescimento da cidade se fazem à custa da destruição de ecossistemas inteiros e do patrimônio histórico-arquitetônico, se a conta da modernização vem sob a forma de níveis cada vez menos toleráveis de poluição, de estresse, de congestionamentos; se é assim, falar de “desenvolvimento” é ferir o bom senso.
São vários pontos a ser questionados. Será que as gerações futuras merecem que se deixe construir na beira dos rios, arroios e córregos? Que se permita a aprovação de loteamentos e construções em áreas que sofreram e são passíveis de enchentes? Que se permita o adensamento com construções geminadas, ferindo a lei de uso e ocupação do solo? Que não se respeite as leis de acessibilidade e mobilidade humana? Que se construa em parques de lazer, ferindo o principal objetivo do mesmo que é a liberação de um amplo espaço para a mobilidade e o lazer de toda uma população? Que o destino e tratamento do lixo sejam inadequados? Que se permita construções em encostas e abertura de ruas com declividade maior que 30%?
Todas essas questões devem ser avaliadas pela população, pelas entidades, pelas lideranças e pelos detentores do poder. Principalmente, na hora de escolher quem vai governar a cidade, quem vai legislar e quem vai proteger essa população.
Os agentes públicos deveriam incorporar o princípio da responsabilidade sobre seus atos. Agir de modo a que os efeitos de sua ação sejam compatíveis com a permanência da qualidade de vida presente e futura.
Por isso, não devemos nos ausentar da responsabilidade de vigiar, cobrar, denunciar, divulgar esses atos nefastos, acima citados.
Dagoberto Waydzik