
“A primeira vez a gente nunca esquece!”
Quem tem hoje por volta de 50 ou mais anos, é da classe média, média baixa, pode confirmar como era ir à praia nos meados dos anos 60, até o início dos anos 70.
Quando se falava em ir à praia a expectativa era grande. Reuniam-se os parentes em casa de uma das famílias interessadas e se começava um intenso planejamento. Especulava-se qual conhecido tinha uma casa no litoral. Fazia-se a lista de pessoas que iriam à “diversão”. Quantos dias daria para permanecer por lá? O que se levaria de mantimentos? Quais os veículos estavam em condições de fazer a “grande” viagem? Tendo as respostas para essas questões, mais ou menos, passava-se ao vamos ver, à consecução do plano.
Certa vez, uns parentes meus resolveram fazer essa jornada na praia de Matinhos. Eu, com meus sete anos, era um dos agregados. O nome desse balneário era muito ouvido por mim e me impressionava. Ainda mais que seria a primeira vez que eu veria o mar. Havia um nó em minha cabeça, pois pensava: o mar é água e Matinhos remete a mato... A dúvida permanecia e eu refletia que poderia ser um grande lago à beira do mato.
Os veículos eram três rurais Willis. As famílias eram compostas de grande número de filhos. Iam cerca de três famílias, mais os “agregados”. Três vezes seis resultavam dezoito pessoas. Tudo mais ou menos. Mas, não importava. Acomodavam-se nos bancos e bagageiros dos veículos e, lá pelas 3 da madrugada saía o comboio. Só não se soltava foguetes por que era muito cedo, mas a vontade era grande, tamanha a euforia da turma.
Na descida da serra as paradas eram muitas. Para limpar o regurgito da criançada, tomar garapa de cana, comprar toletes de palmito, abacaxis, cachos de banana! Como se já não tivesse mantimentos para um mês, sendo que se ficariam apenas três dias. Contudo, essas iguarias não se comiam no dia a dia em nossas casas.
Chegando à casa, emprestada de um dos amigos, por volta de meio dia, deparamo-nos com algumas surpresas. A casa, de madeira, com três quartos, um banheiro somente, para abrigar toda aquela gente. A luz estava cortada, o portão caindo, não tinha gás, sem falar no cheiro de mofo! Mas, cavalo dado não se olha os dentes.
Todos alojados, os homens foram comprar gás, camarões e peixes. A mulherada foi para a limpeza e providenciar o almoço, que já veio de casa. Virado de feijão, arroz, costelinha de porco, uma salada e farofa de ovo, tudo bem leve! A criançada, já de roupa de banho detonou um cacho de banana na chegada. De bebida havia gasosas Cini, gengibirra e as indispensáveis caipirinhas.
Nem bem acabava a limpeza das louças do almoço, a criançada se alvoroçava para ir à praia. Isso, ainda pelas duas da tarde. Sem protetor solar, sem guarda-sol, porém, com três câmaras de ar de caminhão, bolas, pás, baldinhos e muita disposição. Todo mundo na água. Não havia guarda-vidas. Não sei como voltávamos vivos. Só retornávamos para casa na boca da noite. Imaginem como ficava a pele de todos? A maioria dormia sentada, sem poder encostar as costas na cadeira, que dirá na cama.
Noutro dia, a refeição era camarão ao molho com palmito e peixe frito. O camarão era do mais miúdo que existia. Comprava-se sujo e todos tinham que ajudar a limpá-los. Com palitos, as caras meio enjoadas e enojadas, todos ficavam que era só furo por baixo das unhas.
A temporada resumia-se a três dias. Muita bagunça, algumas encrencas entre as crianças, mas muita alegria por ter conhecido o mar.
Os mais velhos, depois de umas oncinhas, ficavam ricos de um dia para o outro e, ensaiavam a compra de terreno para construir uma casa de praia. Até passar o efeito da caipirinha.
No final era tudo muito difícil, sacrificado, mas diferente e satisfatório.
Assim, fui apresentado ao mar. A primeira vez a gente nunca esquece!
Dagoberto Waydzik

