Pirajopya significa pescador na língua guarani. E é lá pelas bandas do berço do povo guarani que estivemos pescando há pouco tempo, no Pantanal mato-grossense.
A região é uma das maiores planícies sedimentares do mundo. Ocupa uma área de aproximadamente, 230 mil quilômetros quadrados. Estende-se pelos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, além da Bolívia e do Paraguai, onde termina no chaco paraguaio. Existem alguns morros isolados nessa imensa planície inundável.
Trata-se de um similar de um imenso vale, que apresenta um relevo semi-plano e, cuja declividade de suas águas, é de apenas 15 centímetros por quilometro. Por isso, há uma dificuldade de drenagem e de escoamento das águas da chuva, o que provoca na época das chuvas, de novembro a março, grandes inundações. Contudo, na seca aparecem as praias, as lagoas e os corixos com seus camalotes floridos.
O gosto de uma pescaria é respirar o ar puro, é ver o sol nascer, navegar pelo rio e descobrir o sentido maior da vida que pulsa em cada ser, animal ou vegetal. No pantanal tudo surpreende, até mesmo à noite, quando não se vê, mas se escuta os sons dos animais e do vento. É um paradoxo, mas é como se ouvir o silêncio.
Acordar cedo é como sentar na primeira fila para assistir um espetáculo. Pouco a pouco aparecem os artistas. Os biguás, os papagaios, as capivaras, as ariranhas, os jacarés. O cheiro do mato faz esquecermos os odores da cidade. O tuiuú, a ave símbolo do pantanal, finge-se de estátua, com parte e suas pernas submersas aguardando para disputar um peixe com a garça branca. O aroma vai crescendo com a intensificação dos raios solares. No mato vemos rastros das onças pintadas e enormes cobras sucuris nos barrancos. Os animais aparecem com muita facilidade. Tudo isso é proporcionado por uma excursão de turismo ou pescaria.
O pantanal é um palco em constante mudança, onde o espetáculo acontece a todo o momento, bastando que os espectadores, ao visitá-lo, estejam atentos aos seus sentidos.
Apanhamos o barco hotel Tupãssy (Mãe de Deus na língua Guarani) e, com ele navegamos o Rio Paraguai, no sentido acima. Esse rio possui uma extensão de 2621 quilômetros, nasce na Serra de Araporé, no estado de Mato Grosso e deságua no Rio Paraná. O barco hotel possui bom conforto, segurança e uma tripulação treinada e competente.
O companheirismo numa pescaria é regra de ouro e, todos são iguais desde o mais rico turista até o mais simples e importante piloteiro. Esse sujeito é um pantaneiro servidor dos pescadores. Pessoa simples, é uma figura interessante, leva a sério sua profissão atendendo ao turista da melhor maneira possível. Fala três idiomas, o espanhol, o português e o guarani, sua predileção, para desgosto dos turistas, que não entendem nada, mas esse idioma muito influenciou a nossa língua. Por exemplo, as palavras: jaguara, araponga, caucau, eichu, guará, itu, jacaré, mandió (mandioca), entre muitas outras. Pergunto ao piloteiro onde fica a entrada do Rio Nabileque? “Ele responde: é atrás daquele pé de carandá”. Depois soubemos que carandá é uma palmácea típica e abundante do pantanal.
Os ribeirinhos respeitam a natureza, mais que em muitos outros lugares e também, que muitas pessoas pelo no Brasil afora. Quase não se vê poluição produzida por esses pescadores. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo de fazendeiros vizinhos que proporcionam enormes queimadas prejudicando o ecossistema do entorno.
A gastronomia é diversificada devido à fartura de alimentos existentes, o que também influenciou algumas comidas brasileiras. Como a moqueca, que é o preparo do peixe pelo processo do moquém, apiloando, envolvendo em folha de bananeira e assada em brasas e cinzas.
Come-se bem, desde um caldo de piranha até alguma caça ou, frutas do local. A capivara, oferecida a nós é abundante por lá e, também é criada em cativeiros, assim como o jacaré. Dizem os pantaneiros que quando ingerida essa carne, libera as toxinas do organismo. Limpa o sangue e, através do suor ficam os resíduos dessas impurezas na pele do indivíduo. A pessoa que se alimenta dela deve banhar-se intensamente, pois podem formar-se feridas na pele do vivente. O cozinheiro do barco hotel preparou um saboroso prato com capivara, criada em cativeiro, disse ele. Tiveram companheiros que não comeram de jeito nenhum. Ou o sangue estava muito limpo ou, não gostam de agredir a água.
Brincadeiras à parte, o fato é que a região é fascinante e todos que tiverem a oportunidade devem conhecê-la, respeitá-la e preservá-la. É um grande patrimônio da natureza.
Dagoberto Waydzik
dagobertowaydzik@blogspot.com.br

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